Um muçulmano na Suprema Corte?

Guga ChacraGuga Chacra fez um post sobre os ataques no Paquistão. Vou comentar um trecho específico com vocês:

“Um cristão foi chefe da Suprema Corte do Paquistão – hoje seria impensável um muçulmano na Suprema Corte dos EUA, por exemplo.”

Alguns pontos importantes sobre possíveis interpretações livres desta frase (não me refiro às reais intenções do autor):

1. Os EUA foram feitos por imigrantes e é um dos países mais plurais e miscigenados do planeta. O atual presidente, apenas para ficar no exemplo mais óbvio, é um mulato havaiano filho de uma americana com um queniano. Ted Cruz, que disputa a vaga de candidato republicano com Trump, é filho de pai cubano. Parece normal, mas esta não é exatamente a regra no resto do mundo.

2. O lema nacional dos EUA é “E pluribus unum” (“De muitos, um”, em latim). A frase foi adotada no processo de independência e significava originalmente a idéia de que as 13 colônias se tornariam um país só. O sentido que a frase ganhou com o tempo é de que a sociedade americana é um “melting pot” (cadinho), uma metáfora para a mistura de raças em torno de um projeto comum de nação. É por isso que se diz que a América é uma idéia.

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3. Há pouco tempo, o Dr. Ben Carson foi perguntado numa entrevista se ele seria contra a ideia de um presidente muçulmano. Ele deu uma resposta correta, mas que evidente foi usada contra ele distorcendo o sentido original. Carson disse que o muçulmano que segue a lei da Sharia não poderia também prestar juramento à Constituição por serem documentos incompatíveis. A imprensa saiu gritando “islamofóbico!”, mas ainda estou aguardando que alguém me mostre o erro da declaração dele. A lei da Sharia é incompatível em vários pontos com a Constituição Americana e o presidente muçulmano teria que fazer uma dura escolha, além de conviver com a dúvida sobre onde estaria seu coração e sua fidelidade real.

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4. Imigração hoje é um assunto lamentavelmente ideologizado e politicamente instrumentalizado, quando deveria ser uma prática baseada no bom senso e no interesse do país. Imigração faz sentido com assimilação cultural, ou seja, o imigrante que opta livremente por trocar de país está implicitamente aceitando os valores culturais, as leis e as tradições do país de destino. Qualquer coisa diferente disso é invasão. É claro que essa regra não se aplica a crises humanitárias como no caso de refugiados ou asilados políticos.

Quando Guga Chacra diz que é “impensável” um muçulmano na Suprema Corte americana, sugerindo que neste ponto o Paquistão seria um país mais tolerante que os EUA, é preciso deixar claro que, assim como o presidente, o juiz da Suprema Corte precisa defender a Constituição acima de qualquer crença religiosa, o que é totalmente compatível com a fé cristã mas que enfrenta vários problemas quando é confrontado com a lei da Sharia.

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Isto não é preconceito, não é xenofobia, não é provincianismo, é fato. A xenofobia (medo ou ódio do estrangeiro) é tão repulsiva quanto à ecofobia, termo menos usual que pode ser entendido como medo ou repulsa ao próximo, ao familiar, ao conterrâneo.

Os EUA são um exemplo de integração e assimilação de imigrantes. As últimas e cada vez mais raras salvaguardas americanas contra a total descaracterização do país não podem nem devem ser vistas como xenofobia, um termo inaplicável para a grande maioria do povo americano.

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