Deus nos livre de um Estado Católico (primeira parte)

Praticamente todos os grandes analistas políticos conservadores e liberal-conservadores do século XX relacionaram a religião cristã, superficialmente tomada como método de atuação política pelos Estados modernos, como as grandes causas das histerias e morticínios do século XX. Todavia, seria ridiculamente parvo se falássemos que foi a própria religião cristã a causa de tais morticínios, gerados […]

Praticamente todos os grandes analistas políticos conservadores e liberal-conservadores do século XX relacionaram a religião cristã, superficialmente tomada como método de atuação política pelos Estados modernos, como as grandes causas das histerias e morticínios do século XX. Todavia, seria ridiculamente parvo se falássemos que foi a própria religião cristã a causa de tais morticínios, gerados — bem se sabe — pelos anseios transloucados e utópicos dos diversos ideólogos que aquele século tomou e erigiu. Não obstante, a religião no lugar errado, por exemplo, na gerência dos instrumentos estatais, geralmente se transforma numa anomalia que finda quase sempre em ditaduras e autoritarismos diversos.

Tais afirmações são dados acessíveis a quaisquer pessoas que nutram um conhecimento básico da história dos séculos XIX e XX. Todavia, há pessoas que querem novamente o advento de Estados religiosos, mais especificamente: Estados Católicos. Esta é a defesa filosófica e teológica que o Sr. Carlos Nougué, um dos maiores tomistas vivos no Brasil, tomou como fronte de argumentação política. Ainda nesse imbróglio, Lucas Berlanza, colega e colunista do Instituto Liberal, se posicionou contrariamente à opinião do tomista num texto recém postado no Instituto Liberal: Nem comunismo, nem Sharia, nem “Estado católico”.

Não demorou quase nada para surgirem os templários da apologética de causas que não conhecem; num estalar de dedos começaram a defender Nougué, numa atitude bonita, compreensível e até louvável entre mestre e aprendiz. No entanto, outras pessas, possessas do espírito de Sharia online, que faria qualquer muçulmano se sentir apequenado, começaram a atacar o colunista liberal em suas postagens no Facebook. Nesse ínterim entre a apologética de Estado católico de Carlos Nougué, o texto de Berlanza e a polêmica posterior, meu texto vem ser uma breve análise da temática, assim como uma crítica polida à tese do Sr. Nogué.

Pensar sem grilhões:

Apesar de assumir minha postura de pensador liberal, não tenho trava alguma que me impeça de criticar tal pensamento político se ver nele sofismas e afrontas à razoabilidade. Não tenho, em suma, apostilas doutrinais de estimação. Afinal, ser verdadeiramente liberal é ser livre até mesmo para criticar o liberalismo e mudar de convicções se assim julgarmos com a boa razão. No dia em que um liberal for impedido de criticar o liberalismo, essa já não será mais uma escola de pensamento, mas uma seita de fanáticos análogas às demais ideologias escravizadoras de consciências.

Sendo assim, comecemos a análise dizendo que minha postura não é, como o distinto tomista afirmou de Lucas Berlanza e penso que também não hesitaria em afirmar de mim, de uma assumida postura liberal dogmática frente a um catecismo modernista. Simplesmente não tenho apego algum a qualquer ideologia política; me aproximo ou me afasto das visões políticas conforme julgo estarem elas mais próximas ou distantes da verdade dos fatos. O crivo é a verdade factual, e não as sandices de cartilhas ou doutrinas.

Religião e Estado não cabem na mesma caixa:

Muitas ideologias não passam de “religiões políticas” ou, como denominou Russell Kirk: “religiões invertidas” (KIRK, 2014, p. 95) a fim de alimentar mentes também  invertidas e parciais. Na minha vida espiritual não cabe outro Deus a não ser Aquele em que eu deposito diariamente a minha fé; e bem sei, também, que seu trono é muito mais digno que uma cadeira presidencial. Os ensinamentos do Cristo foram dados para além dos meros entraves burocráticos de um Estado. Por fim, Ele deixou claro que o seu reino não é desse mundo (São João 18, 36), inverter tal paradigma é o mesmo que trair o próprio ensinamento do fundador do Cristianismo.

Além de diminuir o ensinamento de Jesus, tal atitude acaba se tornando alimento de massas. Eu temo muito quando a fé é apresentada — ou imposta — através de um colosso oficial como o do Estado, e não a partir de uma atitude familiar ou até individual e sincera de busca do criador. Ainda que a Igreja Católica assuma a missão sacramental louvável de reafirmar na fé os que creem com ela, do que adianta, pergunto eu, uma massa crente feita de indivíduos pessoalmente descrentes? A fé, antes de mais nada, parece ser um artigo íntimo e de aceitação pessoal antes de quaisquer aglomerações piedosas ou pregações campais. Se bem me recordo, Cristo começou a sua vida pública chamando os discípulos pessoalmente antes de se aventurar nas “ágoras” e sinagogas judaicas.

O século XX erigiu muitos Estados abertamente ateus, como os diversos modelos de comunismo ao redor do globo; todavia, apesar de serem governos assumidamente ateus, como atuação política e social adotaram métodos quase que religiosos para a governança de seus diversos modelos de Estado. A ideologia tornou-se fé; os escritos do partido, livros sagrados; o partido, a religião oficial; o Estado, o próprio Deus.

Tal realidade foi vista por vários intelectuais de alta estirpe, ao ponto de hoje ser consolidada uma literatura filosófica e antropológica enorme sobre o assunto. Conhecido como “religião política”, tal tema está cada vez mais ganhando espaço nas academias. Uma grande e competente lista de intelectuais e estudiosos como Eric Voegelin, Raymond Aron, Roger Bastide, Raoul Girardet, Hans Maier, Jean-Pierre Sironneau, George Orwell, Vladimir Tismăneanu, Mircea Eliade, Nelson Lehmann, José Osvaldo de Meira Penna, Olavo de Carvalho, entre outros que já pautaram em artigos e ensaios, ou até mesmo escreveram obras inteiras sobre o tema. (Continua na segunda parte)

Referências:

ARON, Raymond. O ópio dos intelectuais, Três estrelas: São Paulo, 2016.

KIRK, Russel. A política da prudência, São Paulo: É realizações, 2014.

HABERMAS, Jürgen; RATZINGER, Joseph; SCHULLER, Florian (Org.). Dialética da secularização: sobre razão e religião, São Paulo: Ideias & Letras, 2007

VOEGELIN, Eric. Reflexões autobiográficas, São Paulo: É realizações, 2015

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