Isentino Kaiowá vai ao Rock In Rio

Acordou pra lá das 10 horas. Cuidou da hortinha que mantém num canto da varanda do apartamento onde mora, em Laranjeiras. Um apê super legal, presente do pai empresário, decorado com obras de arte e mobiliário descolado, alguns feitos com materiais reciclados.

Sobre a cama, a camisa Lula Livre já está esticada. Sobre a mesa, cinquenta gramas de maconha esperam pelos amigos que moram por ali mesmo, na Zona Sul. Dane-se se ainda é expediente para a grande maioria dos brasileiros! Isentino e seus amigos são livres! Não se curvam ao capitalismo!

Seu Iphone toca. Um amigo, de dentro do Uber, pergunta qual é o número do apê. O Iphone toca de novo. Outro amigo: “preciso levar cerveja?”. Em meia hora, o apartamento está cheio de gente e fumaça. Arquitetos, artistas, designers… Galera com consciência política, que detesta ser chamada de comunista, apesar de defender pessoas, partidos, movimentos, ditaduras e ideias comunistas. São apenas pessoas do bem, que estão sempre preocupadas com a natureza, que não cansam de defender a liberdade. Liberdade para sexo, drogas e abortos. Galera que trabalha de freelancer e que defende a legalização da produção e da comercialização da maconha, mas que não aceita de jeito nenhum essas paradas de liberdade econômica, desregulamentação do mercado etc. “O capitalismo já está entrando em colapso. Logo essa burguesia vai estar passando fome”, profetiza um amigo de Isentino, assíduo leitor do Catraca Livre e do Quebrando o Tabu.

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Isentino e seus amigos têm firmes opiniões sobre economia, apesar de nunca terem tocado em livros sobre o assunto. São jovens que têm como clientes pessoas ricas e grandes empresas, mas que detestam o capitalismo. “Só a arte pode salvar esse mundo!”, divaga uma amiga de Isentino, logo após uma longa baforada. Alguém pede silêncio. Na árvore em frente, um sabiá começa a cantar… “Aproveitem, meus amigos! Pelo ritmo de destruição que esse governo está promovendo, logo não teremos nem isso para contemplar”, comenta Isentino, provocando comentários semelhantes de seus amigos. Eles amam a natureza e odeiam os 55 milhões de seres humanos que votaram em Jair Bolsonaro.

Falando neles…

É assunto recorrente entre Isentino e seus amigos o aumento do preço da maconha. Até o serviço delivery foi prejudicado. Mas eles resistem.

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Depois de meia dúzia de baseados e incontáveis garrafas de cerveja, começam a gritar “Lu la li vre!” com largos sorrisos nos lábios, com os olhos brilhando de amor uns pelos outros e de esperança por um mundo mais justo, sem dinheiro, sem armas.

Hora de ir para o Rock in Rio. Uhuu! Tentam encaixar vinte pessoas em três carros de Uber. Os motoristas não permitem. “Caraleo… Esses caras só pensam em lucrar!”, alguém resmunga. Chamam outros Uber.

No percurso pela cidade, com a mente já bastante expandida pela maconha, vão divagando sobre as desigualdades sociais que enxergam na paisagem: os condomínios e as favelas, os carrões de luxo e as pessoas dormindo nas calçadas… “Puta mundo injusto, meu!”, exclama um designer que deixou o bairro de Higienópolis, em São Paulo, para morar em Ipanema.

Uma hora depois, chegam perto da cidade do rock. Muito trânsito. Eles odeiam carro. Então, descem bem antes e vão andando. Como esses jovens são livres!

Isentino e seus amigos, que toda semana tentam entrar de graça em shows de bandas desconhecidas, não vacilaram em pagar meio salário mínimo para assistir a bandas ricas e consagradas. A cerveja está cinco vezes mais cara, mas eles não se importam com dinheiro. Eles se importam com as pessoas; e em volta deles, tem milhares de pessoas felizes, apaixonadas pela vida, pela natureza, pelo cosmo… Gritos de “Lula livre” ecoam aqui e ali. No palco, o cantor de uma banda também grita “Lula livre”. A multidão explode em êxtase. “Olha isso tudo! Que coisa linda! E esse pessoal da direita ainda quer acabar com a cultura desse país!”, comenta Isentino Kaiowá, um tanto emocionado. “Tá na hora!”, alguém lembra. Então, cada um tira de sua carteira um LSD, coloca sobre a língua e… Agora é só esperar a alma expandir ainda mais, por toda a noite, madrugada… Pelo final de semana inteiro, para chegarem na segunda-feira ainda mais fortalecidos para a resistência à ditadura de Jair Bolsonaro.  

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João Cesar de Melo

João Cesar de Melo

É arquiteto e artista plástico.