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Hannah Arendt: do mal radical à banalidade do mal

1. Hannah Arendt

Hannah Arendt estudou na Universidade de Marburg, na Universidade Albert Ludwig em Freiburg e na Universidade de Heidelberg. Formou-se e doutorou-se durante a efervescência cultural e política do fim da República de Weimar, tendo sido aluna e colega de importantes filósofos alemães como Heidegger, Jasper, Husserl, Hans Jonas, etc. Certa feita, confrontada com a afirmação de que ela seria um dos tipos intelectuais que vieram da esquerda alemã, Arendt replicou, em carta ao teólogo judeu Gershom Scholem: “Se pode ser dito que eu vim de alguma parte, é da tradição da filosofia alemã.

De fato, sua formação inicial com os grandes nomes supracitados da fenomenologia e do existencialismo educou o seu olhar filosófico, dotando-a, ainda mais, de uma profunda capacidade de análise que, devido às vicissitudes próprias do seu tempo, incidiu de modo particularmente arguto sobre as trágicas experiências totalitárias do século XX.

Já em 1933, enquanto Heidegger aderia ao nazismo e se tornava reitor da Universidade de Freiburg sob as bênçãos do regime hitlerista, Hannah distanciava-se do ex-professor, colocando-se em oposição àquele que, além de seu mestre, também fora seu amante. Era a primeira de uma série de afeições rompidas no processo de afirmação de um pensamento original, potente e livre.

Após ser detida, por alguns dias, pela Gestapo, por colaborar com envio de documentos para uma organização de resistência ao regime, Arendt decide deixar a Alemanha e refugia-se na França, permanecendo em Paris de 1934 a 1940. Nesse período  – embora um tanto decepcionada com a intelectualidade europeia e mais ocupada em trabalhar em uma organização que conduzia judeus do leste europeu para a região do futuro estado de Israel do que com sua produção intelectual -, ela frequenta os famosos seminários do hegeliano Alexandre Kojève, encontra Raymond Aron, faz amizade com Walter Benjamim (também refugiado em Paris), conversa longamente com Jean Wahl, Alexandre Koyré e enxerga em Albert Camus “o melhor homem na França”, ou seja, agrega novos saberes à sua já sólida formação filosófica.

Diferentemente, porém, de Sartre, Simone Beauvoir, Maurice Merleau-Ponty e outros intelectuais franceses que irresponsavelmente defenderam a violência, Hannah Arendt – em atitude semelhante a de Albert Camus[1] – mantém uma distância crítica em relação ao radicalismo revolucionário, além de cultivar certa dose de ceticismo no que concerne ao engajamento dos existencialistas franceses que, segundo ela, buscavam na política a solução para suas perplexidades filosóficas.

Em perspectiva oposta àquela defendida por Karl Marx na sua famosa tese 11 sobre Feuerbach (“Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.”), Arendt reafirmará a clássica importância da atividade teórica e da vida contemplativa, criticando ironicamente o paradoxo dos teóricos da práxis que a desprezam:

“A falta de vontade das pessoas que realmente estão pensando, que são teóricos, em acreditar que pensar vale a pena, e que em vez disso acreditam apenas que o comprometimento e o engajamento são válidos, talvez seja uma das razões pelas quais toda essa disciplina não está sempre em boa forma. Aparentemente, as pessoas não acreditam no que estão fazendo[2].”

Para Arendt, o “fazer” não poderia tomar o lugar do “compreender” sem acarretar

prejuízos ou mesmo catástrofes. O “não pensar” – seja por engajamento político, seja pela inserção em uma engrenagem cotidiana que aparentemente torna a reflexão ética e a capacidade de julgar dispensável – traz consigo um grande risco. De certa forma é também isso que estará em questão na polêmica tese de Arendt acerca da banalidade do mal.

2. O mal radical

Durante a ocupação nazista da França, Hannah Arendt chegou a ser presa e enviada para um campo de concentração, mas conseguiu fugir após alguns meses, indo refugiar-se nos Estados Unidos, onde viveu até o fim de sua vida. Foi lá, em 1943, que tomou conhecimento da existência dos campos de extermínio nazistas espalhados pela Europa, o que a abalou profundamente.

Seu esforço intelectual concentra-se, a partir daí, na necessidade de compreensão desse acontecimento absurdo e, até 1951, data da publicação de Origens do totalitarismo, ela empreende uma portentosa pesquisa de história e teoria política para consecução dessa obra que a tornará célebre, embora também já levante contra si a antipatia de muitos intelectuais de esquerda, desgostosos com a aproximação que tal obra  estabelece entre nazismo e stalinismo, ambos considerados como variantes de um mesmo fenômeno totalitário.

Na análise do fenômeno totalitário a questão do mal se impõe. Com os campos de concentração, o mal teria atingido, segundo Arendt, uma proporção inédita. Para compreender essa pavorosa perversidade do assassinato em massa, desprovido de qualquer critério utilitário, com o único objetivo de degenerar a natureza do ser humano e gerar uma pilha de cadáveres, Hannah Arendt passa a concebê-lo com mal absoluto e/ou radical: “Se é verdade que, nos estágios finais do totalitarismo, surge um mal absoluto (absoluto, porque já não pode ser atribuído a motivos humanamente compreensíveis), também é verdade que, sem ele, poderíamos nunca ter conhecido a natureza realmente radical do Mal.[3]

O mal radical não tem sentido, não tem motivo, não tem fundamentação, não pode ser perdoado, não pode ser julgado, não pode, em suma, ser alcançado pela discussão ética e moral, devendo, pois, ser tratado enquanto fenômeno político, uma vez que, infelizmente, o mal absoluto teve lugar na história e esse evento inexplicável precisa paradoxalmente compreendido.

Algum tempo depois, porém, Arendt repensará a atribuição do adjetivo “radical” ao mal promovido pelo totalitarismo, uma vez que esse mal não era invencível, indestrutível, não tinha profundidade e, talvez, pudesse ter sido perpetrado com a participação de alguns indivíduos desprovidos de intenções malignas.

Ao se oferecer para assistir e cobrir, para uma revista americana, o julgamento de Adolf Eichmann, oficial nazista responsável pelo transporte de judeus aos campos de concentração e de extermínio, Hannah Arendt esperava encontrar um monstro, mas, para sua surpresa, deparou-se com um palhaço[4].

3. A banalidade do mal

A obra Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, publicada em 1963, promoveu um deslocamento conceitual do mal radical para a banalidade do mal. A relação entre o conceito anterior do mal totalitário e as nuances assimiladas após o julgamento de Eichmann pode ser colocada como uma questão: como pessoas banais, corriqueiras, vulgares, puderam praticar o mal em tal dimensão?

O acusado por crime contra o povo judeu, crimes contra a humanidade e crimes de guerra, dentre outros, era um tipo comum: “altura mediana, magro, meia-idade, quase calvo, dentes tortos e olhos míopes […] que tenta desesperadamente, e quase sempre consegue, manter o autocontrole, apesar do tique nervoso que lhe retorce a boca.[5]” A cada uma das acusações, Eichmann declarava-se “inocente, no sentido da acusação[6]”, afirmando insistentemente que não tinha nada a ver com o assassinato dos judeus, que nunca tinha dado ordens para matar e que só podia ser acusado “de ‘ajudar e assistir’ à aniquilação dos judeus.[7]”Argumentava ainda que “o que ele fizera era crime só retrospectivamente, e ele sempre fora um cidadão respeitador das leis, porque as ordens de Hitler, que sem dúvida executou o melhor que pôde, possuíam força de lei no Terceiro Reich[8]”.

No Terceiro Reich operou-se uma espécie de inversão do imperativo categórico kantiano (“aja de tal modo que o Führer, se souber da sua atitude, a aprove[9]”), para não falar na total inversão dos dez mandamentos cristãos. O “não matarás” cedeu lugar ao “matarás” e aqueles que, de algum modo ainda guardavam algum instinto de compaixão eram logo trazidos de volta à “consciência” do seu dever de obediência e lealdade:

“E assim como a lei de países civilizados pressupõe que a voz da consciência de todo mundo dita: ‘Não matarás’, mesmo que os pendores do homem natural sejam às vezes assassinos, assim a lei da terra de Hitler ditava à consciência de todos: ‘Matarás’, embora os organizadores dos massacres soubessem muito bem que o assassinato era contra os desejos e os pendores normais da maioria das pessoas. No Terceiro Reich, o mal perdera a qualidade pela qual a maior parte das pessoas o reconhecem – a qualidade da tentação. Muitos alemães e muitos nazistas, provavelmente a esmagadora maioria deles, deve ter sido tentada a não matar, não roubar, não deixar seus vizinhos partirem para a destruição e a não se tornarem cúmplices de todos esses crimes tirando proveito deles. Mas Deus sabe como eles tinham aprendido a resistir à tentação[10].” (p.167)

Em um momento de “fraqueza”, Eichmann chegou a ajudar um primo meio-judeu, mas se arrependeu e confessou “seus pecados” aos seus superiores[11]. Ele orgulhava-se sinceramente de ser um cumpridor dos seus deveres e chegou a afirmar em interrogatório “que teria mandado seu próprio pai para a morte se isso tivesse sido exigido[12].” Era a sua tentativa canhestra de dar testemunho da “dureza impiedosa”, “qualidade tida em alta estima pelos governantes do Terceiro Reich[13]”.

Embora não tivesse precisado ir tão longe, Eichmann realmente tinha a objetividade típica da mentalidade da SS e orgulhava-se dela. Era essa objetividade que permitia a funcionários como ele falarem “dos campos de concentração em termos de administração e dos campos de extermínio em termos de economia.[14]

A centralidade da burocracia – que dificulta ao indivíduo perceber o alcance e as consequências dos seus atos – e o não-pensar são dois elementos importantes na caracterização que Hannah Arendt faz da banalidade do mal.

Embora diligente e eficiente do ponto de vista técnico e organizacional, Eichmann não era capaz de pensar no sentido amplo que Arendt empresta a essa palavra. Ele tinha uma espécie de embotamento moral, só conseguindo se interessar e conhecer aquilo que dizia respeito a si mesmo, aos seus interesses pessoais e às suas ambições mesquinhas de carreirista servil: Eichmann não se perturbou com questões de consciência. Sua cabeça estava inteiramente tomada pelo gigantesco trabalho de organização e administração.[15]” Cada linha de suas anotações revelava “sua total ignorância de tudo que não fosse direta, técnica e burocraticamente ligado ao seu trabalho.[16]

Eichmann simplesmente não se preocupava em avaliar as consequências de seus atos; era um burocrata eficiente, cuja racionalidade estava restrita ao seu aspecto mais instrumental, limitada às duas coisas “que ele sabia fazer bem, melhor que os outros: organizar e negociar[17].” Sua estranha consciência só pesava quando ele não desempenhava bem a sua função, que, por acaso, era executar a logística para o transporte e posterior extermínio de um povo[18]em relação ao qual ele pessoalmente não tinha nada contra.[19]

Ao abrir mão da exigência do pensamento, de buscar entendimento e atribuir sentido, Eichmann abre mão de si mesmo. Ao agir no mundo em conformidade com os traços característicos de uma personalidade centrada em si sem atribuir a esse si mesmo dignidade e valor pelo ato de pensar, torna-se incapaz de reconhecer no outro[20] um semelhante; a falta de empatia torna-o, então, o carrasco que ele assegurava nunca ter sido.

O aspecto mais inquietante da reflexão empreendida por Hannah Arendt já está evidente: muitos de nós poderíamos ter sido um Eichmann porque Eichmann – se por um acaso não tivesse nascido na Alemanha nazista – poderia ter sido apenas mais um burocrata, um funcionário público, talvez um empresário, um executivo, um ministro ou qualquer outro tipo desses para quem “um manda e outro obedece.”

Em seu último depoimento à corte, Eichmann insistiu que “sua culpa provinha de sua obediência, e a obediência é louvada como virtude. Sua virtude havia sido abusada pelos líderes nazistas. […] ‘Não sou o monstro que fazem de mim’, disse. ‘Sou vítima de uma falácia.’”[21]

De fato, o “problema de Eichmann era exatamente que muitos eram como ele, e muitos não eram nem pervertidos, nem sádicos, mas eram e ainda são terrível e assustadoramente normais.”[22].

[1] Cf. NOVAES, Adriana. Arendt e o melhor homem da França IN Estado da Arte – revista de cultura, arte e ideias (https://estadodaarte.estadao.com.br/camus-arendt-adriana-liberdade-honestidade/)

[2] Thinking Without a Banister: Essays in Understanding 1953-1975. Ed. Jerome Kohn. New York: Schocken, 2018. p. 449 Apud NOVAES, Adriana. Arendt e o melhor homem da França IN Estado da Arte – revista de cultura, arte e ideias

[3] ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. Tradução Roberto Raposo. 4. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p.13

[4] “Apesar de todos os esforços da promotoria, todo mundo percebia que esse homem não era um ‘monstro’, mas era difícil não desconfiar que fosse um palhaço” (ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém. Um relato sobre a banalidade do mal; tradução José Rubens Siqueira – São Paulo: Companhia das letras, 1999. p. 67).

[5] Eichmann em Jerusalém. Um relato sobre a banalidade do mal. p.15

[6] Idem p.32

[7] Idem. p.33

[8] Idem p35

[9] Idem.153

[10] Idem. p.167

[11] Idem.p.154

[12] Idem.p.54

[13] Idem.p.180

[14] Idem.p.83

[15] Idem.170

[16] Idem..67

[17] Idem. p.57

[18] “Quanto à sua consciência, ele se lembrava perfeitamente de que só ficava com a consciência pesada quando não fazia aquilo que lhe ordenavam – embarcar milhões de homens, mulheres e crianças para a morte, com grande aplicação e o mais meticuloso cuidado.” (Idem.p.37)

[19] “Seu caso não era de um ódio insano aos judeus, de um fanático antissemitismo ou de doutrinação de um ou outro tipo. ´Pessoalmente, ele não tinha nada contra os judeus” (Idem.p.37)

“Ele se esforçou bastante para provar esse ponto: jamais abrigara no peito nenhum sentimento mau por suas vítimas” (Idem p.42)

[20] Quanto mais se ouvia Eichmann, mais óbvio ficava que sua incapacidade de falar estava intimamente relacionada à sua incapacidade de pensar, ou seja, de pensar do ponto de vista de outra pessoa.” (Idem p.61-62)

[21] Idem p. 269

[22] Idem p.299

Catarina Rochamonte

Catarina Rochamonte

Catarina Rochamonte é Doutora em Filosofia, vice-presidente do Instituto Liberal do Nordeste e autora do livro "Um olhar liberal conservador sobre os dias atuais".