Quinta, 09 de Setembro de 2010
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Revolução de 30: uma perspectiva após 75 anos
Cândido Prunes

Neste dia 24 de outubro registram-se exatos 75 anos da vitória dos revolucionários de 1930. Os brasileiros viveram momentos de crescente tensão, tanto naqueles dias quantos nos anos que antecederam a Revolução.

 

Na década de 20, diversos movimentos liderados por oficiais agitaram a República, especialmente a “Coluna Prestes”. No interior do Nordeste, o cangaço aterrorizava as populações urbanas e rurais. No Rio Grande do Sul, até a assinatura do “Tratado de Pedras Altas”, muitos conflitos políticos eram solucionados com degolas, que podiam resultar no assassinato simultâneo de dezenas de pessoas. A década se encerrou com a sombra da crise econômica de 1929 que derrubou o preço do principal item de exportação do Brasil, o café. Neste contexto tumultuado, ainda ocorreram as eleições (fraudadas pelos dois lados) de 1o de março de 1930 e o assassinato de João Pessoa, que serviu de estopim para o movimento revolucionário.

 

O dia 24 de outubro de 1930 amanheceu com o País tomado por conflitos. Tropas revolucionárias e legalistas estavam à beira de um confronto na localidade de Itararé, na divisa de São Paulo com o Paraná. O Exército já havia marchado, no dia anterior, para o Palácio Guanabara onde se encontrava o Presidente Washington Luís reunido com seu ministério. Com a adesão dos generais Mena Barreto, Leite de Castro e Tasso Fragoso, outros agrupamentos militares sediados no antigo Distrito Federal também passaram a apoiar a deposição do Presidente. Assim, na manhã do dia 24, mobilizaram-se a Polícia Militar, a Vila Militar e o 3o Batalhão de Infantaria, sendo que este último posicionou-se na Praia do Botafogo. No final da manhã, havia uma grande multidão, misturada com militares, em torno do Palácio. Os três generais levaram então a “proposta” para que Washington Luís abandonasse o governo. Sua primeira reação foi negativa, embora ele tivesse assistido nos últimos dias ao esboroamento das forças que o sustentavam. Diante do impasse e do risco de conseqüências sangrentas, o então Cardeal Sebastião Leme interferiu e, finalmente, o Presidente deixou no final da tarde o Palácio Guanabara, rumo ao exílio. Uma junta militar liderada pelo General Tasso Fragoso assumiu, então, o Poder.

 

Embora vitorioso o movimento para derrubar a República Velha, as primeiras semanas foram ainda muito tensas. Getúlio Vargas vinha acompanhando as tropas revolucionárias desde o Rio Grande do Sul e quando transcorreram os acontecimentos dramáticos de 24 de outubro, ele ainda estava longe da Capital da República.

O governo Federal correu sério risco de ficar nas mãos dos militares que derrubaram o Presidente, mas Getúlio Vargas teve o poder assegurado graças às intervenções de Góes Monteiro e Oswaldo Aranha, depois de intensas negociações com a Junta. Apenas no dia 28 de outubro Vargas desembarcaria na Estação da Luz, em São Paulo, e no dia 31, no Rio de Janeiro. A sua posse acabou acontecendo somente em 3 de novembro.

 

Mas os revolucionários de 1930 estavam longe de integrarem um grupo homogêneo. Quando Getúlio Vargas constituiu o “Governo Provisório”, ele começou um exercício de delicado equilíbrio entre as forças que derrubaram Washington Luís. A 11 de novembro, o Congresso e todas as casas legislativas do Brasil foram dissolvidas. O País passou a ser governado por decretos presidenciais e dos interventores nomeados por Getúlio Vargas em cada estado. Juarez Távora, líder dos tenentes, “recebeu” 12 estados nordestinos, o que lhe valeu a alcunha de “Vice-Rei do Nordeste”. Ao longo dos 15 anos que durou o governo “provisório” de Getúlio Vargas, haveria inúmeras alianças e rompimentos com as forças e personagens que o apoiaram. A coalizão revolucionária foi se diluindo com o tempo, na medida que a carismática figura do Presidente foi se fortalecendo. O que era um projeto para revolucionar os usos e costumes políticos foi se transmudando num simples projeto de Poder.

 

Para alcançar esse feito, Getúlio Vargas inaugurou a ambigüidade desavergonhada como forma de fazer política. Quando os ventos pareciam soprar a favor do nazismo e do fascismo na Europa, ele pendeu para o lado da Alemanha e Itália. Mas ao ser alertado por Oswaldo Aranha de que as chances na guerra eram favoráveis aos aliados, celebrou um acordo militar com o Presidente Roosevelt. Quando os comunistas pareciam perigosos, não vacilou em persegui-los, prendê-los e torturá-los. Quando a ameaça pareceu controlada, subiu nos palanques eleitorais com Luiz Carlos Prestes. O Getúlio Vargas que enalteceu a imprensa foi o mesmo que implantou a censura e permitiu a destruição de redações e tipografias de jornais. Para manter-se no Poder, Getúlio Vargas teceu toda a sorte de alianças políticas e recorreu a todos os métodos. Sem esquecer de beneficiar em abundância parentes, amigos e correligionários com cargos públicos, embaixadas, empréstimos em bancos oficiais, etc.

 

Felizmente, transcorridos 75 anos da Revolução de 1930, os costumes políticos brasileiros “mudaram” completamente.

 

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