Livic Bertily
“O senso de perspectiva que a interação com múltiplas culturas lhe dá, eu considero ser de extrema valia, pois permite que você veja a estrutura de um país com maior clareza, e lhe dá um senso de independência mental. Você não é arrastado pelas trivialidades de uma nação. Você pode se concentrar nas coisas sérias.” (Julian Assange)
Desde dezembro de 2010, uma onda de revoluções liberais varre ditaduras do Oriente Médio e do Norte da África, num fenômeno que recebeu o nome de “Primavera Árabe”. Ao contrário das revoluções tradicionais esta se articulou com base em mídias sociais[1], que ocupam o papel da imprensa convencional (jornais, rádio e televisão) na difusão da informação. Simultaneamente na América do Sul, o governo argentino, que passa por uma anacrônica crise econômica, insiste na criação de mecanismos de controle quantitativo da mídia impressa[2]. Notamos que estes países estabelecem uma relação hostil com a liberdade de informação, interessados em criar um consenso quanto aos objetivos nacionais e em controlar o aumento das demandas sociais.
Governos totalitários e populistas são mantidos pelo consenso. Isto porque tomam para si a responsabilidade de atender a um conjunto de fins sociais pré-estabelecidos, tais como o aumento do dinamismo econômico, da qualidade de vida, do nível de empregos e outras demandas sociais. Depois de definidos estes propósitos consensuais, não se admite questionamentos quanto à efetividade e à legitimidade dos mesmos. Os que se opõem à ação governamental passam a ser tratados como uma espécie de câncer que entrava o desenvolvimento nacional. Hayek detalha no livro “O caminho da Servidão” como o aumento da esfera de ação estatal leva também à limitação da esfera de ação individual. A própria educação passa a ser uma ferramenta para criação de consensos, pois os próprios cidadãos passam a ser instrumentos que possibilitam o alcance das metas sociais estabelecidas. Deixam assim de ser importantes por suas individualidades e passam a possuir um compromisso com os objetivos traçados pelo governo. Um bom exemplo disso está na educação argentina, que ensina patrioticamente, desde cedo e sem discussão crítica, o axioma “Las Malvinas son Argentinas”.
Outro fenômeno que acompanha o aumento da liberdade de informação é o crescimento das demandas sociais, que são geradas pela natural comparação entre o padrão de vida nacional e o estrangeiro. No Oriente Médio e no Norte Africano, esta percepção foi possibilitada pela dificuldade técnica dos governos ditatoriais em controlar a informação provinda da internet. A impossibilidade de controle efetivo da informação trouxe consigo uma verdade diferente daquela que seria supostamente um consenso social. Evidenciou-se, então, a realidade de um atraso político e econômico em relação ao Ocidente. A partir daí, a própria população organiza-se irredutivelmente contra o status quo e propõe a queda dos regimes estabelecidos, que não têm se mostrado capazes de barrar a onda de mudanças.
Neste momento histórico, a mídia mostra sua capacidade de atender aos interesses populares com maior presteza do que se poderia imaginar. Deste modo, o arcaísmo argentino de querer controlar o que é atualmente incontrolável – sob o pretexto de a grande mídia estar vinculada a grupos hegemônicos – é uma tarefa que já se demonstrou ineficaz por si mesma. Ao contrário do que pensa o governo, é justamente a liberdade que trás consigo a diversidade, e não o autoritarismo. Quanto mais livre é a informação, menos a mídia é capaz de atender a algum interesse específico e o problema com o que a população passa a se defrontar é a crueza da realidade.
As primaveras continuarão a florescer…
[1] Este conceito trata da produção de conteúdos de forma descentralizada e colaborativa, tendo como meio de propagação a internet.
[2] Em janeiro de 2012, o governo argentino estabeleceu uma cota para importação e fabricação de papel imprensa, que passaram a ser considerados setores de interesse público. O objetivo é claramente prejudicar grandes jornais que divergem das opiniões do governo.
Excelente artigo, aborda de forma clara profunda a questão da liberdade de imprensa e correlaciona com fatos atuais além de despertar interesse na leitura.