por Jacques Bonhomme
O debate sobre qual deve ser o papel do Estado na economia remonta a períodos muito anteriores ao aparecimento dos primeiros economistas políticos e continua sendo uma questão muito controversa na atualidade. Será argumentado nesse ensaio que um sistema econômico de livre mercado possui uma lógica interna de funcionamento superior à lógica dos sistemas econômicos com algum grau de controle ou direção estatal.
Num livre mercado, os recursos são alocados de acordo com as preferências subjetivas dos milhões de indivíduos que o compõem. Tal processo é concretizado através do sistema de lucros e prejuízos. Quando um empreendedor emprega certos bens, ele incorre num custo, que equivale ao valor do uso alternativo mais valorado pelos componentes do mercado. Ao rearranjar esses bens, o mesmo empreendedor os transforma em outros bens, distintos dos iniciais[1], e os põe à venda no mercado, obtendo uma receita, a qual será determinada pelo valor que os indivíduos atribuem a esses novos bens. Se, durante esse processo, o empreendedor cria valor para os demais indivíduos (i.e., se sua receita for maior que seu custo), ele obterá um lucro. Se, ao invés disso, ele destrói valor, obterá um prejuízo. Dessa forma, desejando obter lucro, os empreendedores retiram recursos de atividades que destroem valor e os transferem para atividades criadoras de valor. Nesse processo interminável, o juiz final é o consumidor; é ele quem, em última instância, determina a direção do mercado de forma a melhor lhe servir.
Numa economia controlada pelo Estado, o sistema de lucros e prejuízos é impedido de funcionar adequadamente. Como demonstrou von Mises[2], é impossível determinar quais são as atividades criadoras e destruidoras de valor numa economia planificada: se não há mercados para os meios de produção, estes não possuirão preços que reflitam os valores de seus usos alternativos. Dessa forma, numa economia socialista não há como saber o custo incorrido no processo produtivo e, portanto, é impossível comparar esse custo com o valor dos bens finais. Numa economia intervencionista, por outro lado, o sistema de lucros e prejuízos está presente, mas seu funcionamento é distorcido pela ação estatal. O gasto governamental desloca recursos de setores mais lucrativos (aqueles que criam maior valor) para setores menos lucrativos ou, até mesmo, deficitários (aqueles que criam menos valor ou destroem valor). Atualmente, no Brasil, o exemplo mais explícito desse tipo de realocação perversa de recursos é dado pela atuação do BNDES, o qual artificialmente reduz os custos de algumas empresas através da concessão de juros a taxas subsidiadas. Tais custos artificialmente menores implicam em lucros artificialmente maiores os quais, por sua vez, provocam a atração de recursos em detrimento de setores que criam maior valor agregado, mas que não tiveram seus lucros inchados.
Vimos que a ação do Estado, mesmo que tenha como intenção o aprimoramento dos resultados obtidos num livre mercado, tende apenas a piorá-los. Mas será que é mesmo razoável supor que as intenções dos agentes governamentais são sempre genuinamente boas? A Escola da Escolha Pública, cujos maiores expoentes são James Buchanan e Gordon Tullock, investigou as consequências da suposição de que os agentes públicos, assim como os privados, também visam seus auto-interesses. Uma das conclusões desse programa de pesquisa é que, quando um programa governamental apresenta benefícios concentrados e custos dispersos, ele tende a ser realizado mesmo que os custos excedam em muito os benefícios. Por serem poucos, os beneficiados conseguem se organizar com facilidade e podem financiar lobbies em prol do programa. Já os prejudicados, por estarem dispersos, encontram bastante dificuldade em se unirem para barrar o programa, sendo que muitos deles nem sequer ficam sabendo que foram prejudicados.
O mercado é, portanto, um árbitro econômico melhor do que o Estado, mesmo que esse seja composto por indivíduos puramente altruístas. A superioridade do mercado fica ainda mais explícita, no entanto, quando adotamos a suposição mais realista de que o Estado também é composto por indivíduos auto-interessados.
[1] Vale observar que não são as características físicas ou objetivas dos bens que definem se eles serão bens distintos ou idênticos. Dois bens serão idênticos ou distintos se eles subjetivamente forem avaliados dessa forma pelo agente.
[2] Ludwig von Mises, Socialism (1981).