Itamaraty e o anão diplomático que nos tornaram

O Ministério das Relações Exteriores de nosso país vive uma crise sem precedentes. Longe dos tempos áureos, quando o Itamaraty participava dos grandes acordos de diplomáticos do mundo e era reconhecido internacionalmente por sua atuação no soft power, contando com Oswaldo Aranha, Barão de Rio Branco – patrono da diplomacia no Brasil —, Visconde de […]

anaodiplomaticoO Ministério das Relações Exteriores de nosso país vive uma crise sem precedentes. Longe dos tempos áureos, quando o Itamaraty participava dos grandes acordos de diplomáticos do mundo e era reconhecido internacionalmente por sua atuação no soft power, contando com Oswaldo Aranha, Barão de Rio Branco – patrono da diplomacia no Brasil —, Visconde de Uruguai, Roberto Campos, Luís Martins de Souza Dantas, Affonso Arinos de Mello Franco, Quintino Bocaiúva e Ruy Barbosa; hoje é visto com total descrédito frente à comunidade internacional.

A partir da gestão do ministro Celso Amorim, entre 2003 e 2011, se iniciou um verdadeiro desastre para a diplomacia brasileira. Celso já tinha um histórico de ideologismo em suas decisões. Quando era chanceler do governo do presidente Itamar Franco entre os anos de 1992 e 1994, proibiu que a embaixada do Brasil em Washington mantivesse contato com exilados cubanos e ainda mandou aumentar as grades da embaixada brasileira em Havana, além de expulsar quatro cubanos que tinham invadido o prédio em busca de asilo, contrariando o então embaixador brasileiro em Washington, Paulo Tarso Flecha de Lima.

Durante o período Amorim, o país passou a negociar mais com países que não agregaram nada na economia e diplomacia mundial, governos déspotas que desrespeitam a democracia e os direitos humanos. Sofremos com ele várias derrotas diplomáticas como nas eleições de membros brasileiros para o Banco Interamericano de Desenvolvimento e para a Organização Mundial do Comércio. Seguindo seu comando e ideologismo, realizamos alianças com ditaduras árabes, votamos contra o Estado de Israel na ONU, apoiamos ao ditador hondurenho Manuel Zelaya – deposto pela população em 2009 -, fizemos vistas grossas aos governos da Bolívia e da Venezuela e, por fim, Celso Amorim, nutrindo simpatia pelo governo de Mahmoud Ahmadinejad do Irã, procurou intermediar acordos que beneficiassem o déspota iraniano em termos diplomáticos.

Porém, o ideologismo de Amorim apareceu de forma clara em 2007. Nesta época eram realizados os jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro e, como na maioria dos eventos esportivos onde se tem alguma delegação de Cuba, tivemos casos de deserção. Os casos mais famosos foram a dos boxeadores Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux, o jogador de handebol Rafael D’Acosta, junto com o treinador de ginástica artística Lázaro Camellas. Com exceção de D’Acosta, que conseguiu visto de trabalho no Brasil, os três foram quase repatriados por Cuba, com influência direta do Itamaraty. Os governos da Alemanha e dos Estados Unidos, em contra partida, intervieram na situação e concederam asilo ao treinador e aos boxeadores. A alegação de Amorim era que Camellas, Rigondeaux e Lara não formalizaram o pedido de asilo ao Ministério da Justiça, mas alguém, com o histórico de Celso Amorim, deixa margem para dúvidas.

Ao fim do governo Lula em 2010 e com a posse da presidente eleita Dilma Rousseff em 2011, ocorre uma substituição nas forças que coordenam o Itamaraty. Sai Celso Amorim e assume Antônio Patriota. Patriota buscou eliminar do Itamaraty as influências de Lula, do secretário-geral da presidência Gilberto Carvalho e do consultor de relações internacionais do PT Marco Aurélio Garcia. Mas, seu jeito discreto e a sua posterior defesa da agenda de Celso Amorim não agradavam Dilma. Sendo assim, a partir de 2012, ele ficou marcado negativamente. Principalmente por auxiliar na expulsão do Paraguai do Mercosul, no pós-impeachment de Fernando Lugo, alegando rompimento democrático, adicionando a “democrata” Venezuela em seu lugar e demorando para reconhecer o presidente eleito do Paraguai no pós-impeachment de Lugo. Entretanto, foram problemas com a Bolívia que marcaram a era Patriota no Itamaraty.

A primeira foi em fevereiro de 2013, quando em uma partida da Copa Libertadores entre o San José e o Corinthians. Um sinalizador foi atirado na área destinada aos torcedores do Corinthians que acertou e vitimou o jovem Kevin Espada, torcedor do clube boliviano. A polícia boliviana acabou prendendo doze fãs do clube paulista, mesmo com a confissão de outro torcedor que já estava em solo brasileiro. O presidente – e ditador – Evo Morales queria utilizar os doze brasileiros como moeda de troca para poder prender o senador oposicionista Roger Pinto Molina, exilado na embaixada brasileira em La Paz. Mesmo admitindo o risco que os brasileiros sofriam, Patriota não fez nada na situação, aderindo ao mesmo ideal de seu antecessor Celso Amorim: “falar fino” com La Paz e “grosso” com Tel Aviv e Washington. Sorte que a pressão internacional fez com os brasileiros fossem soltos.

Posteriormente, o senador boliviano que estava exilado na embaixada do Brasil em La Paz teve sua fuga planejada pelo embaixador brasileiro Eduardo Saboia, auxiliado por membros do alto oficialato da Marinha do Brasil e o senador brasileiro Ricardo Ferraço, a época no PMDB, todos atuando sem o consentimento de Patriota. O ministro acabou demitido por Dilma por não ter impedido a vinda de Molina ao Brasil e a Bolívia dava mais uma rasteira no Brasil, propagando o país como imperialista e com o governo brasileiro não dando a resposta devida.

Todavia, a derrocada do Itamaraty se aprofunda com a chegada de Luiz Antônio Figueiredo. No momento da implosão da crise política na Venezuela, onde o Itamaraty ficou silente, mesmo com a prisão de opositores, como Leopoldo López. Quando do reacender dos conflitos entre Israel e Palestina, o palácio do Itamaraty lançou nota estritamente panfletária apoiando à Palestina. A consequência foi o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel chamar o Brasil de “anão diplomático”, respondendo a altura da petulância dos “ideólogos de botequim” do Ministério das Relações Exteriores (MRE) e fazendo os brasileiros sentirem vergonha de sua atuação.  Se não fosse bastante, ainda tivemos em 2014 o papelão da presidente Dilma Rousseff, na assembléia geral da ONU, propondo o diálogo com o grupo ISIS, grupo que assassina e destrói tudo que vê pela frente em nome da instauração do grande califado mundial.

Com a chegada do ministro Mauro Vieira, em 2015, aconteceram mais incidentes diplomáticos. No caso do traficante brasileiro Marco Archer, condenado à morte na Indonésia por tráfico, os diplomatas do Itamaraty tentaram salvar a vida de Archer apelando a cláusulas democráticas. O brasileiro acabou fuzilado e a presidente Dilma mandou que o embaixador brasileiro em Jacarta voltasse ao Brasil, bem como, negou as credenciais do embaixador da Indonésia no Brasil. Uma resposta burra! Assim como negar as credenciais do novo embaixador de Israel no Brasil, Doni Dayan, pelo fato do diplomata ter sido presidente da entidade que reúne os colonos judeus instalados na Cisjordania, em mais uma implicância ideológica com Israel.

Contudo, a pior notícia chegou essa semana do Itamaraty. Funcionários ligados a área de combate a fome do MRE, como o chefe da área Milton Rondó Filho, enviaram, recentemente, telegramas para todas as representações brasileiras no mundo alertando para uma tentativa de golpe de Estado no Brasil. Em uma tentativa totalmente desesperada buscavam que governos e sociedades civis internacionais se solidarizassem com a atual gestão do governo, aquele que quebra os recordes de reprovação popular e está amplamente envolvido em casos de corrupção.

Infelizmente na era PT, os interesses superiores da nação deixaram de orientar nossa política externa. Desde 2003, o Itamaraty cede à ideologia pessoal do governante da ocasião, fazendo com que viremos a cada dia mais um anão diplomático. Pobre Barão de Rio Branco. Pobre de nós.