Balança comercial e o neomercantilismo petista

O Governo Federal publicou, e os blogs nojentos financiados pelos bancos públicos republicaram com muito orgulho, os dados relativos à balança comercial de 2015. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, a balança comercial brasileira teve um superávit de R$ 19,69 bilhões, que teria sido o melhor ano desde 2011. Preliminarmente, balança comercial é o […]

balancaO Governo Federal publicou, e os blogs nojentos financiados pelos bancos públicos republicaram com muito orgulho, os dados relativos à balança comercial de 2015. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, a balança comercial brasileira teve um superávit de R$ 19,69 bilhões, que teria sido o melhor ano desde 2011.

Preliminarmente, balança comercial é o resultado da diferença entre o que um país importa e o que um país exporta. Ou seja, se a balança é positiva, é porque o país exportou mais do que importou, e se a balança é negativa, é porque o país importou mais do que exportou.

Normalmente, uma balança comercial positiva é vista como algo positivo, pois se um país vendeu mais do que comprou, pressupõe-se que houve um enriquecimento desse país no ano que se passou.

Essa visão, de fato, pode ser bastante equivocada, e no caso concreto do Brasil em 2015, é muito equivocada.

A desvalorização recorde do real frente ao dólar fez com que, para estrangeiros, comprar produtos brasileiros fosse muito mais barato. Ao mesmo tempo, para um brasileiro, passou a ser cada vez mais difícil e caro comprar produtos importados.

Passamos a vender mais produtos para o mercado internacional, não porque nossos produtos se tornaram melhores, com maior valor agregado, ou porque tivemos um aumento na produtividade, mas simplesmente porque eles se tornaram mais baratos, e isso na verdade é uma medida de empobrecimento, e não de enriquecimento.

Em um exemplo concreto: se uma empresa brasileira, em 01/01/2015, produzisse 100 toneladas de um produto que vendesse a dez reais por tonelada para uma empresa estrangeira, com o dólar a R$ 2,70, naquele dia faturaria US$ 370,37. Em 31/12/2015, produzindo as mesmas 100 toneladas a dez reais cada tonelada, a venda para uma empresa estrangeira, com o dólar a R$ 4,00, resultaria em um faturamento de US$ 250. Pela mesma quantidade de trabalho, a empresa brasileira deixou de ganhar pouco mais de 120 dólares.

Se com essa perda econômica no valor unitário da venda de cada bem, captamos muito mais recursos do exterior, isso significa que, na prática, houve desabastecimento interno, sentimento esse que se mostra prático com a queda dos índices de produtividade da economia brasileira, resultando em aumento geral de preços de produtos e serviços para a população brasileira.

Na verdade, o aumento do superávit da balança comercial brasileira, em um cenário de desvalorização cambial e redução da produtividade, significa que o Brasil ficou mais pobre, com seus fatores de produção mais exauridos, em um cenário de aumento geral de preços por desabastecimento e com concentração de renda, pois todos ficaram mais pobres enquanto apenas os exportadores propriamente ditos ganharam alguma coisa nesse arranjo.

Em um cenário em que a poupança nacional real é negativa, pois a população consome mais do que produz, a desvalorização cambial gera necessariamente o fim dos investimentos externos no país, já que, para uma empresa estrangeira lucrar com investimento no Brasil, tem que superar não só o custo-Brasil da falta de infraestrutura, alta carga tributária, burocracia e baixa qualificação profissional, mas também superar a própria desvalorização do lucro.

Afinal, nesse cenário de desvalorização de mais de 50% da moeda nacional, se a empresa investir em dólar para lucrar em real, terá de ter um lucro realmente alto para superar o cenário inóspito e a falta de poder de compra da clientela nacional.

Uma última perspectiva se dá no que tange ao que é importado de fato. Como o Brasil é reconhecidamente uma nação de poucos avanços tecnológicos, para aumentar a produtividade nacional é necessária a importação de bens de capital e técnicas atreladas a recursos humanos. Com o baixo poder de compra do real, essa importação que gera riqueza futura fica inviabilizada, criando um sistema onde permanecemos dependentes da produção externa, sem o aumento de empregos e renda no país. Mesmo uma importação “boa” aos olhos desenvolvimentistas fica inviabilizada.

E por que então essa comemoração descabida?

Porque o Brasil ainda vive, do ponto de vista econômico, na era mercantilista que regeu a Europa nos séculos XV e XVI, a chamada era do mercantilismo, onde economistas achavam que a riqueza de uma nação está atrelada à acumulação de reservas, ao protecionismo e à balança comercial positiva, o que, como visto, é uma falácia. Esse é o neomercantilismo petista conectando o Brasil do passado ao Brasil do presente, na pior maneira possível.

Já está mais que provado que a verdadeira riqueza está no aumento do fluxo de negócios e seu bom ambiente econômico, na moeda forte e estável e nas instituições democráticas sólidas que respeitam a propriedade privada e a liberdade de empreender. Em suma, é tudo aquilo que acredita o liberalismo anti-petista que quer conectar o Brasil do presente ao Brasil de um futuro próspero e rico.

Não se deixe enganar por supostas boas notícias. No atual cenário econômico, desconfie de tudo o que o Governo publique. Em 99,9% dos casos, sua desconfiança se mostrará correta.

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